domingo, 14 de maio de 2017

Retrato da Tua Sinestesia




Tua palavra, sábia e cuidadosa,
É mais doce que os versos de Drummond
Mais quente que melodias de Tom Jobim
Aveludadas como tuas canções que me fazem adormecer

Teus cabelos, ramos de parreiras
Que crescem e se entrelaçam
Nos meus fragmentos de afetos disjuntados

Nem em mais longínquos sonhos
Tua imagem se concretizaria
Brilhas mais que uma constelação inteira
De estrelas que me invadem em amor

Quero a cada instante
Enlaçar-me em teus braços
E deixar que me venham os versos de criança:
Delicados, inocentes e puros, posto que a ti retratam

Enxergar-me através de teus olhos
Cujo brilho ultrapassa o das mais preciosas pedrarias
Fitar teu tão radiante sorriso,
Reflexo dos céus límpidos de domingo

Possuir e ser possuída por tua agitada serenidade
Que conecta os batimentos do meu coração
E os transforma em meus versos de adolescente:
Inconstantes, geniosos e carinhosos, posto que a ti retratam


Almejo-te para a eternidade
Mas sei que, se estou contigo,
Já sou infinita.
Infinitamente grata por te ter,


Mãe.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Previsão sinestésica





De manhã, você passou voando por mim
E me sorriu radiante.


À tarde, sozinha, eu precisava conversar
E você apareceu
E acabou com a minha sede por assuntos.


Depois dessa chuva de emoções,
Borboletas voaram em meu estômago.


Pela noite, o céu sem nenhuma nuvem
Mas, que estranho!
Se uma tempestade de sentimentos invade minha cabeça.


Então, sinto o noticiário de minha mente
- A previsão é de intenso sol amanhã -

Que bom que esse tal sol é esse seu tal sorriso!

domingo, 26 de março de 2017

Quero-Quero um Amor



Quero um amor delicado
Um amor emocionado
Um amor inspirado
Em somente me amar

Quero um amor mensageiro
Um amor verdadeiro
Por favor, não passageiro!
Mas que tenha o dom de enfatizar

Quero um amor avoado
Um amor açucarado
Um amor bem pensado
Que  me leia um bom livro

Quero um amor romântico
Um amor semântico
E que, com apenas um cântico,
Consiga me emocionar

Quero um amor analgésico
Um amor anestésico
Um amor sinestésico
Que me dê chocolates

Quero um amor divertido
Um amor colorido
Um amor desmedido
E desprovido de chatices

Quero um amor palavreado
Um amor exagerado
Um amor preocupado
Em me levar ao cinema

Quero um amor bem calminho
Um amor tão quietinho
Um amor abraçadinho
Que me faça cafuné

Esse amor que Quero-Quero
Esse amor tão Beija-Flor
Tomara que ele saiba (ou Sabiá)

Que o quero como amor

domingo, 12 de março de 2017

Teorias no Semáforo

Era hora de ir à escola, umas seis e quarenta da manhã, mais ou menos. Saímos de casa, minha mãe e eu, esperando menos trânsito e mais semáforos abertos. Mas, é claro, não foi o que aconteceu.

Lá pelo vigésimo sinal vermelho com o qual nos deparamos na Rua José Antônio, sem nada para fazer, começamos a observar o ambiente que nos rodeava.

À nossa direita, um homem todo másculo, porte de academia, acabava de estacionar sua moto diante de uma butique e tirava seu capacete a fim de entrar na lojinha. O que estaria fazendo um cara daquele jeito em uma loja de produtos femininos?

O homem (chamava-se Christian), ao chegar em casa na tarde anterior, encontrara sua namorada, cheia de ódio, gritando e tendo chiliques. Ele, sem entender nada, perguntara o que houvera. Jacira, em vez de responder, gritara mais ainda e dissera que estava tudo acabado. Saíra batendo a porta de maneira estrondosa.

No dia seguinte, confuso com o que acontecera, tentou reatar as relações com a ex-namorada. Pensou no que ela mais gostava e em um presente relacionado a isso. Foi então que se lembrou de como Jacira amava roupas novas e de como ela, todo dia, reclamava que Christian não era capaz de lhe dar “nem uma blusinha!”

Para completar todo esse pensamento, lembrou-se, ainda, de que tinha uma amiga que havia inaugurado recentemente uma butique de roupas femininas e que, desde então, insistia para que ele fosse visitar. Pronto! Acabara de matar dois coelhos com uma só cajadada. Visitava a loja de sua amiga e, ao mesmo tempo, tramava uma surpresa a Jacira. Estacionou sua moto, decidido, diante do estabelecimento. A amiga o recebeu muito bem e o ajudou na escolha da roupa.

Naquela noite, Christian chamou Jacira para jantar em sua casa. Ela, um pouco receosa, decidiu não recusar.Quando chegou, ela ficou espantada. A humilde sala, agora à meia-luz, transformara-se em um ambiente aconchegante e luxuoso. Velas estavam dispostas em cima de cada móvel e, sobre a mesa, havia um inesperado buquê de rosas. Christian a esperava, de gravata vermelha e paletó, com algo em sua mão. Em um piscar de olhos, ele estava ajoelhado, com um anel na mão; Jacira chorando, ele, pedindo-a em casamento. As roupas foram entregues, junto com um beijo, a ela.

Foi então que o sinal se abriu e ficamos sem saber se Christian realmente tinha brigado com Jacira, ou se Christian ao menos tinha uma namorada, ou se Christian sequer chamava-se Christian.






*Esse texto foi inspirado em um hábito que tenho de imaginar o que está acontecendo na vida das pessoas que passam por mim e se encontram em alguma situação incomum. Teorias no semáforo, no parque, no shopping ou onde for, o que eu não deixo de lado é meu hábito de inventar histórias!

domingo, 5 de março de 2017

Alma Descoberta




Com -9 meses de idade, eu descobri o que é o amor. Se eu o sentia? Não sei, mas posso descrever cada sensação da minha mãe ao saber que tinha uma pequena vida embrulhada em seu ventre. O carinho com que ela me acariciava, como se eu fosse o mundo para ela. Os cuidados que ela tinha só para me ver saudável. Tudo o que ela deixou de comer só para que eu nascesse mais rechonchuda que a lua cheia... Bom, e essa sou eu: a Lua.

Eu descobri meu nome, assim que nasci. Luna Valentine, era como seria reconhecida neste planeta pelo resto dos meus dias. Meu pai, que morava na Itália, e minha mãe, que sempre viveu no Brasil, não podiam se ver com frequência, mas tinham uma coisa que os ligava entre milhares de hectares do maior oceano do mundo: a Lua. O brilho dela lembrava minha mãe dos olhos dele, e meu pai, ao olhar para o céu, já tinha o sorriso dela em sua mente. Eram dois apaixonados, unidos por São Valentin e ligados pela Lua e por sua primeira filha, eu, a “Lua dos apaixonados”.

Assim que saí do hospital, descobri a luz do sol. Descobri a minha família, a minha casa, o cheiro do aconchego. Descobri aquele que seria meu companheiro de vida, que me apoiaria em tudo o que eu fizesse, que me contaria histórias até eu dormir. Eu descobri meu avô. O toque de sua mão me tranquiliza até hoje, as palavras que saem de sua boca entram no meu ouvido como uma leve melodia de primavera. Os poemas de 9 versos que, mesmo com 90 anos, ele lembra e recita como se fosse a primeira vez, fazem com que eu me sinta a pessoa mais sortuda do mundo!

Com 1 ano, descobri que eu podia caminhar. Eu posso não lembrar de detalhes, mas imagino que tenha sido uma das melhores coisas que já me aconteceu. Tocar a grama com meus dedinhos do pé, sentir as folhas do chão fazendo cócegas nos meus calcanhares, perceber que eu não dependia de alguém para ir aonde eu queria (o berço, o lugar onde eu guardava meus brinquedos, minha cozinheira pessoal - que atende pelo nome de “mãe”).

Com 1095 dias no planeta, descobri o poder da escrita e da leitura. Não sei qual foi a primeira coisa que relatei no papel, mas sei que o que eu mais gostava era de fazer a lista de supermercado para minha mãe, que ditava os fonemas de cada palavrinha com a maior paciência do mundo. Descobri que eu conseguia decifrar aqueles símbolos, não mais estranhos para mim, dos anúncios dos “outdoors”, dos rótulos de comida, dos rodapés dos jornais, das revistas de promoção e das histórias em quadrinhos. Mas minha descoberta das palavras não parou por aí. A cada dia que se passa, eu descubro neologismos dentro de mim, metáforas ainda por se formarem.

Com 4 aninhos, descobri o que é ser professor. Senti que essas pessoas que nos ensinam vão de corpo e alma no trabalho e dão de tudo para que nós, seus alunos, possamos nos tornar melhores seres humanos, com mais cultura, conhecimento e diversidade de assunto. Descobri o poder do ensino, do carinho recíproco entre mestre e estudante, da paixão pela profissão. Descobri o quanto é bom distribuir elogios sem precisar receber nada em troca para aqueles que nos emprestam, todos os dias, um pedacinho de seus cérebros.

Também, nesse período, descobri que existe, sim, bicho-papão, e que atende pelo nome de “mentira”. Conheci-o no dia em que chamei minha mãe de “chata” - o que me valeria um dia de castigo. Mas, ao que ela me perguntou indignada se eu havia dito mesmo isso, respondi que não; pronto, um dia se tornou uma semana sem fazer as coisas que eu gostava. Descobri um poder bem ruim na mentira, que nos priva do que gostamos e nos presenteia com um peso na consciência. Palavras não voltam... Se não se diz coisas ruins, não há nada para esconder, logo, não há motivo para mentir.

Descobri minha melhor amiga aos 7 anos. Miel Caramel é o nome da “Cocker Spaniel” orelhuda que ganhou meu coração com 28 dias de idade. Hoje, após 8 anos convivendo comigo, eu ainda não consigo olhar para os seus olhos caídos de paixão e não morrer de amores por ela, que me acorda com um pulo na cama e com “beijinhos” no meu ouvido, que ama brincar com uma vassoura, que acha que vou roubar sua comida cada vez que chego perto. A nossa amizade não tem fim.

Aos meus 11 anos, descobri o que é sentir saudade de verdade. Mudei de cidade e deixei minha família, meus amigos, minha escola e todas as pessoas que eu mais amava. Era o início de uma nova fase na minha vida e eu estava animada com isso, mas era muito difícil não pensar em tudo o que estava longe de mim e que eu não podia ver todos os dias. É, a saudade ainda me acompanha em alguns momentos, mas eu a sinto de uma forma diferente; não é mais aquela saudade que dói. Aprendi a lidar com ela, e agora só sinto uma leve nostalgia de coisas que me aconteceram, mas que para sempre estarão comigo guardadas na minha memória e nos versos de cada poema meu.

Junto com isto veio A Grande Descoberta: bem-querer não ocupa espaço! Não precisa sair ninguém nem nada do coração da gente para entrar mais outro montão de gente e memórias.

Nessa mesma época, descobri o que eu queria ser para o resto da minha vida. Médica? Engenheira? Administradora? Não. Eu quis ser escritora. Quis transformar cada pensamento meu em prosa e estrofes, em figuras de linguagem, em livros com muitos capítulos. Ainda quero. E, na verdade, é um sonho que, eu tenho certeza, será realidade. Quero mostrar ao mundo o ângulo pelo qual eu enxergo a vida, o que eu sinto quando vejo o pôr-do-sol e toda forma de poesia no planeta. Quero que todos percebam o encanto e a grandeza de se ver a vida com os olhos do amor, que é como eu enxergo as coisas.


Hoje, com 15 anos, ando por aí descobrindo novas formas de viver. Descubro-me mais a cada dia que se passa, desfaço-me de ações convencionais e procuro por novas lentes que se encaixem na minha câmera que fotografa vivências. Descubro-me de preceitos passados e me cubro com novas experiências e valores que nutram minha realidade. É dessa forma que eu, Luna Valentine, cuja primeira coisa que aprendi foi a amar, descubro a vida.