domingo, 5 de março de 2017

Alma Descoberta




Com -9 meses de idade, eu descobri o que é o amor. Se eu o sentia? Não sei, mas posso descrever cada sensação da minha mãe ao saber que tinha uma pequena vida embrulhada em seu ventre. O carinho com que ela me acariciava, como se eu fosse o mundo para ela. Os cuidados que ela tinha só para me ver saudável. Tudo o que ela deixou de comer só para que eu nascesse mais rechonchuda que a lua cheia... Bom, e essa sou eu: a Lua.

Eu descobri meu nome, assim que nasci. Luna Valentine, era como seria reconhecida neste planeta pelo resto dos meus dias. Meu pai, que morava na Itália, e minha mãe, que sempre viveu no Brasil, não podiam se ver com frequência, mas tinham uma coisa que os ligava entre milhares de hectares do maior oceano do mundo: a Lua. O brilho dela lembrava minha mãe dos olhos dele, e meu pai, ao olhar para o céu, já tinha o sorriso dela em sua mente. Eram dois apaixonados, unidos por São Valentin e ligados pela Lua e por sua primeira filha, eu, a “Lua dos apaixonados”.

Assim que saí do hospital, descobri a luz do sol. Descobri a minha família, a minha casa, o cheiro do aconchego. Descobri aquele que seria meu companheiro de vida, que me apoiaria em tudo o que eu fizesse, que me contaria histórias até eu dormir. Eu descobri meu avô. O toque de sua mão me tranquiliza até hoje, as palavras que saem de sua boca entram no meu ouvido como uma leve melodia de primavera. Os poemas de 9 versos que, mesmo com 90 anos, ele lembra e recita como se fosse a primeira vez, fazem com que eu me sinta a pessoa mais sortuda do mundo!

Com 1 ano, descobri que eu podia caminhar. Eu posso não lembrar de detalhes, mas imagino que tenha sido uma das melhores coisas que já me aconteceu. Tocar a grama com meus dedinhos do pé, sentir as folhas do chão fazendo cócegas nos meus calcanhares, perceber que eu não dependia de alguém para ir aonde eu queria (o berço, o lugar onde eu guardava meus brinquedos, minha cozinheira pessoal - que atende pelo nome de “mãe”).

Com 1095 dias no planeta, descobri o poder da escrita e da leitura. Não sei qual foi a primeira coisa que relatei no papel, mas sei que o que eu mais gostava era de fazer a lista de supermercado para minha mãe, que ditava os fonemas de cada palavrinha com a maior paciência do mundo. Descobri que eu conseguia decifrar aqueles símbolos, não mais estranhos para mim, dos anúncios dos “outdoors”, dos rótulos de comida, dos rodapés dos jornais, das revistas de promoção e das histórias em quadrinhos. Mas minha descoberta das palavras não parou por aí. A cada dia que se passa, eu descubro neologismos dentro de mim, metáforas ainda por se formarem.

Com 4 aninhos, descobri o que é ser professor. Senti que essas pessoas que nos ensinam vão de corpo e alma no trabalho e dão de tudo para que nós, seus alunos, possamos nos tornar melhores seres humanos, com mais cultura, conhecimento e diversidade de assunto. Descobri o poder do ensino, do carinho recíproco entre mestre e estudante, da paixão pela profissão. Descobri o quanto é bom distribuir elogios sem precisar receber nada em troca para aqueles que nos emprestam, todos os dias, um pedacinho de seus cérebros.

Também, nesse período, descobri que existe, sim, bicho-papão, e que atende pelo nome de “mentira”. Conheci-o no dia em que chamei minha mãe de “chata” - o que me valeria um dia de castigo. Mas, ao que ela me perguntou indignada se eu havia dito mesmo isso, respondi que não; pronto, um dia se tornou uma semana sem fazer as coisas que eu gostava. Descobri um poder bem ruim na mentira, que nos priva do que gostamos e nos presenteia com um peso na consciência. Palavras não voltam... Se não se diz coisas ruins, não há nada para esconder, logo, não há motivo para mentir.

Descobri minha melhor amiga aos 7 anos. Miel Caramel é o nome da “Cocker Spaniel” orelhuda que ganhou meu coração com 28 dias de idade. Hoje, após 8 anos convivendo comigo, eu ainda não consigo olhar para os seus olhos caídos de paixão e não morrer de amores por ela, que me acorda com um pulo na cama e com “beijinhos” no meu ouvido, que ama brincar com uma vassoura, que acha que vou roubar sua comida cada vez que chego perto. A nossa amizade não tem fim.

Aos meus 11 anos, descobri o que é sentir saudade de verdade. Mudei de cidade e deixei minha família, meus amigos, minha escola e todas as pessoas que eu mais amava. Era o início de uma nova fase na minha vida e eu estava animada com isso, mas era muito difícil não pensar em tudo o que estava longe de mim e que eu não podia ver todos os dias. É, a saudade ainda me acompanha em alguns momentos, mas eu a sinto de uma forma diferente; não é mais aquela saudade que dói. Aprendi a lidar com ela, e agora só sinto uma leve nostalgia de coisas que me aconteceram, mas que para sempre estarão comigo guardadas na minha memória e nos versos de cada poema meu.

Junto com isto veio A Grande Descoberta: bem-querer não ocupa espaço! Não precisa sair ninguém nem nada do coração da gente para entrar mais outro montão de gente e memórias.

Nessa mesma época, descobri o que eu queria ser para o resto da minha vida. Médica? Engenheira? Administradora? Não. Eu quis ser escritora. Quis transformar cada pensamento meu em prosa e estrofes, em figuras de linguagem, em livros com muitos capítulos. Ainda quero. E, na verdade, é um sonho que, eu tenho certeza, será realidade. Quero mostrar ao mundo o ângulo pelo qual eu enxergo a vida, o que eu sinto quando vejo o pôr-do-sol e toda forma de poesia no planeta. Quero que todos percebam o encanto e a grandeza de se ver a vida com os olhos do amor, que é como eu enxergo as coisas.


Hoje, com 15 anos, ando por aí descobrindo novas formas de viver. Descubro-me mais a cada dia que se passa, desfaço-me de ações convencionais e procuro por novas lentes que se encaixem na minha câmera que fotografa vivências. Descubro-me de preceitos passados e me cubro com novas experiências e valores que nutram minha realidade. É dessa forma que eu, Luna Valentine, cuja primeira coisa que aprendi foi a amar, descubro a vida.

20 comentários:

  1. Luna, já havia lido esse seu texto e achei de uma delicadeza impressionante, exatamente como Vc, fadinha! Continue nos brindando com seu mundo! Beijos

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  2. Maravilhada... Parabéns querida vc domina a arte, não tenho dúvidas que será uma das melhores de seu tempo. Beijos e muito sucesso princesa linda. Mamãe Gracy parabéns pela linda filha, mostrou que quem sai aos seus não degenera. Bjus queridonas.

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  3. Não te conheço, mas, convivi com tua mãe uma pequena parte de nossas vidas.
    Parabéns vc escreve muito bem.
    Continue se esmerando.
    Vc consegue dar aquele gostinho de quero mais.
    Desejo que Deus te ilumine cada dia mais com sua sabedoria.
    Bjs

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  4. Parabéns Luna. Adorei seu texto! Muita luz nesta caminhada. Sucesso e beijos

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  5. Parabéns Luna. Adorei seu texto! Muita luz nesta caminhada. Sucesso e beijos

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  6. Seguir seu coração e ver o mundo com o olhar do amor. Parece tão fácil mas é algo raro e que, na minha concepção, caracteriza seres especiais...
    Nesse caminho e com esse foco, tenho certeza que conquistarás tudo que almejar, primita!

    Bjs pra ti e pra mãe orgulhosa ��

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  7. Texto lindo e gostoso de ler. Parabéns, continue escrevendo e nos presenteando com eles. Adorei. Bjs

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  8. Emocionei aqui, Luna-Lua. Cada pedacinho do seu viver representa um pedacinho do viver da gente. Essa é uma das maiores qualidades de um escritor: por meio de um, representar muitos - muitos seres, muitos sentimentos, muitas vivências, muitos saberes... Já sentia que você seria especial antes de você nascer, porque acompanhei um pouco da sua vida uterina e do amor com o qual você ia inspirando a sua mamãe dia após dia, enquanto esse amor ia alimentando a sua vida e iluminando, mais e mais, a vida da sua mamãe. Sim: você foi muito bem-vinda! E sim, é uma delícia ver, agora, o resultado desse amor que eu conheci lá atrás, seja porque ele ainda faz os olhos da sua mamãe brilharem como no momento em que ela soube da sua chegada, seja porque você se tornou alguém capaz de fazer mais e mais olhinhos brilharem. MUITO feliz por este presente. Feliz por sua mamãe, feliz por sua Vida, feliz por nós, a quem você também decidiu presentear. Grata. <3

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  9. Parabéns Luna! Que você continue seguindo seu coração e nos presenteando com lindos textos como esse!

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  10. Maravilhoso!! Maravilhosa! Chorei aqui um pouquinho... Lindo!

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